PARAFUSOS, AGULHAS, SABORES E ODORES | Estou com medo Dra!

dentist holding molar,dental concept Som do motor, curetas, parafusos, agulhas, sabores e odores. Pouco são os que carregam boas lembranças do dentista. Na área da saúde, a odontologia é a prática menos “encantadora”. Logo, ir ao dentista é algo que poucos fazem com regularidade. Naturalmente, o desconforto existe. Para alguns a cadeira causa verdadeira fobia. Instrumentos de trabalho, soam como  um arsenal pronto a não oferecer bons presságios. O “paciente”, cede lugar ao frio na barriga enquanto que, em silêncio, o dentista enfrenta a própria ansiedade.

Certa vez, agendaram um paciente que disse ter me conhecido na fila da padaria. Curiosamente tentei lembrar-me de quem poderia ser. Na data marcada, ouço a secretária conversando com a auxiliar:            

– Ah, avisa a Dra. que o paciente da padaria remarcou.

Aquilo soou como um alerta aos meus ouvidos. 

A estória das remarcações sucederam por mais duas vezes. Normalmente oriento para não permitirem prolongamentos nesses casos. Agendamentos sem comparecimento, afetam aos que procuram por horários para seus tratamentos. O mistério em descobrir quem era o paciente da padaria, permitiu uma exceção neste caso. Nos casos de remarcações como este, é normal que se crie uma expectativa, uma torcida, para saber se o agendado entra na lista de pacientes ou não. É quase cultural. Aquela tarde era uma festa. Os comentários eram constantes e as apostas rolavam soltas a todo vapor entre os funcionários.

Finalizado procedimento, a sala foi limpa e estava pronta a espera do paciente mais esperado por todos. Passaram-se 10, 15, 20, 30 minutos e após 45 minutos ele chega.

 – O paciente acabou de chegar, a Sra. vai atende-lo?

Respondi que remarcassem.

O mistério havia sido desvendado. O consultório acalmou, a empolgação já não tinha tanto fervor. Um homem de meia idade, muito bem vestido, mas que estava pálido e apreensivo, segundo as descrições que obtive. Então percebi o motivo do atraso. Medo.

Na consulta seguinte, pontualmente no horário marcado, adentrou a minha sala um homem com cerca de 45 anos, aparência agradável, cabelos grisalhos e bem cuidados que resgatou minha lembrança na bendita padaria onde uma conversa informal, mas que por algum motivo o deixou confiante, permitiu estar ali naquele momento.

Em cerca de 30 minutos de atendimento, não olhou para a cadeira em nenhum momento. Não quis que eu o examinasse. As desculpas foram fáceis e estavam na ponta da língua. Fácil notar o quanto desconfortável com a situação, ele estava.

O respeito ao sentimento alheio é fundamental e em momentos como esse, ter habilidades humanas que transcendem as acadêmicas, é essencial.

Agitado, sugeri uma sedação consciente. Expliquei  do que se tratava e rapidamente a ideia foi aceita. Bastou um comprimido e 20 minutos. Em meio a palavrões e segredos ditos pelo paciente naqueles minutos de devaneio, o pavor passou. Sinceramente, são as sessões em que mais nos divertimos. Realizo tranquilamente o procedimento e tudo fica como uma lembrança remota, pois a amnesia nesses casos é muito comum.

Na consulta seguinte a coroação de uma trabalho consciente; o paciente retorna com um sorriso de canto a canto da boca dizendo:  

– Foi a melhor consulta da minha vida!

Sorri e pensei; que maravilha, menos um paciente no mundo com medo de dentista!

Cerca de 10% da população sofre verdadeira fobia a ponto de agendar inúmeras vezes a consulta e inúmeras vezes, desmarca-la. Entram, desistem da consulta. Na cadeira, não permitem que o profissional trabalhe. O dentista passa o dia com as mãos imersas nas mais variadas bocas com o propósito de aliviar os sentimentos de dor e pavor dos pacientes. Estabelecer uma relação de confiança e empatia com o profissional que irá lhe atender implica diretamente no resultado final de qualquer tratamento que venha a ser traçado, desenvolvido. Saber como o profissional se posiciona perante suas dores e medos, o deixará seguro quanto às sessões e o tipo de trabalho que será realizado. Ouvir, compreender, atender com qualidade e atenção devidas, são predicados que um bom profissional deve ter. Sentir-se bem, desde o momento em que se é recebido até a finalização do processo, faz diferença e permite retornos mais frequentes. Encontre o seu dentista!

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